Agonorexia: O Novo Efeito Colateral das Canetas Emagrecedoras e seu Impacto na Relação com a Comida
A recente introdução de medicamentos injetáveis para o controle da obesidade, popularizados como as ‘canetas emagrecedoras’, como o Ozempic e outros análogos do GLP-1, trouxe avanços significativos no tratamento da obesidade e diabetes tipo 2. No entanto, o sucesso terapêutico vem acompanhado de um efeito colateral emergente que tem gerado preocupação e discussões: a agonorexia. Este termo, cunhado para descrever a perda de apetite de forma tão acentuada que pode beirar a anorexia, levanta questões sobre a neurociência por trás desses medicamentos e como eles alteram a percepção e o desejo por alimentos. A ação desses fármacos no cérebro, mimetizando hormônios intestinais, não apenas retarda o esvaziamento gástrico, mas também atua em centros de recompensa e apetite, modificando a relação do indivíduo com a comida de maneira profunda. A eficácia desses medicamentos é inegável para muitos pacientes que lutam contra o sobrepeso e a obesidade, condições associadas a um risco elevado de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e certos tipos de câncer. Os resultados observados em estudos clínicos e na prática médica apontam para perdas de peso substanciais, melhorando marcadores de saúde metabólica. Contudo, a linha entre a perda de peso saudável e a restrição alimentar excessiva pode se tornar tênue. A agonorexia surge quando essa supressão do apetite é tão intensa que o prazer associado à alimentação desaparece, levando a uma ingestão calórica perigosamente baixa e potencialmente prejudicial à saúde física e mental em longo prazo. O debate se estende para a compreensão da neurociência que une a obesidade e os transtornos alimentares. Tradicionalmente vistos como distúrbios psicológicos distintos, a perspectiva atual, influenciada por esses novos medicamentos, sugere uma interconexão mais complexa mediada por vias neurais e hormonais. A forma como o cérebro processa a fome, a saciedade e a recompensa alimentar está intrinsecamente ligada ao nosso bem-estar e autonomia. A intervenção farmacológica que altera drasticamente esses mecanismos exige um acompanhamento médico rigoroso e uma vigilância constante para evitar que o controle da obesidade se transforme em um novo problema de saúde, como um transtorno alimentar velado. Diante desse cenário, a conscientização sobre a agonorexia é fundamental não apenas para profissionais de saúde, mas também para o público em geral. É crucial que os benefícios de medicamentos como Ozempic sejam ponderados em relação aos seus potenciais riscos, promovendo uma abordagem terapêutica equilibrada. A relação do brasileiro com a comida, já influenciada por fatores culturais e sociais, está sendo redesenhada pela ciência, exigindo um diálogo aberto sobre os limites da intervenção médica e a importância de manter uma relação saudável e prazerosa com a alimentação, mesmo quando o objetivo é a perda de peso.